Talian e/ou Veneto Brasileiro
A vida e suas contradições permanecerão como
mistério.
As historias, piadas e lendas no Talian ou Vêneto
Brasileiro, nasceram para justificar um fato vivido. Seja na sua forma de ser,
nas normas de leis, nas injustiças sociais, no objetivo concreto ou mesmo
apenas em representações, as palavras na língua de origem eram as páginas de um
calendário material que impunha o trabalho e a festa. Fosse no campo semeando
ou colhendo o grão, fosse em casa correndo os dedos no rosário (uma das maiores
forças dos nossos emigrantes: a fé), fosse em reuniões nas capelas nos finais de semana, na comunidade. A
nossa cultura não mudou de estrada, não abandonou referimentos e necessidades.
Ao contrário, nasceu junto ao primeiro choro do primeiro filho nascido na nova terra
e em todos permaneceu de forma a ser conservada para sempre.
No convívio das comunidades, o abraço da nova
solidariedade: condição de vida decente, o desejo de reconhecer-se e conhecer
uns aos outros, de repetir as mesmas histórias para transmitir o valor de uma
sociedade contínua. No trabalho do campo, no artesanal e no industrial, a mútua
colaboração e a alma plena que, lentamente, com o passar dos anos e ‘ o vamos
fazer juntos’, levou ao nascimento de uma koinè formada dos diversos dialetos
trazidos do norte italiano, o nosso Talian. Tudo isso valorizou o passado e deu o senso certo à nossa necessidade de mantermo-nos entre
a tradição e o mundo novo.
Uma
cultura que vive de tradições e memória dos fatos que as antigas gerações
transmitiram é a nossa identidade social e pessoal, em nome da
continuidade/comunidade.
Essa comunidade somos todos nós.
Continuemos…
Data- março 1994
L’omo che ze
morto de confusion-Talian
Luigi André
Soccol
Localidade- Serafina Corrêa- RS
Gavìo belche
sentìo de qualchedun che un òmo sia morto de confusion?
Ben, questa la ze
‘na letera che ze stà catà in man de un
poro òmo che se gà copà. La dise cossita:
Caro Capo dela
Polissia:
No stè mia meter
la colpa de la me morte a nessun. Gò dassà sta vita parché, un giorno de pì che
stesse quà, deventaria mato.Ve spiego, caro, che gò bìo l’onor de sposarme co
una vedova che gavea ‘na fiola. E se savesse de questo, mai e mai me gavarìa
sposà.
Me pupa, par
desgrassia, zera vedovo anda lu e, ga
volesto la fatalità, che se inamoresse dela fiola de me dona. Cossa galo
diventà, lora, ve domando? Ze restà che la me dona ze diventà la suocera de me
pupà, e la fiola de me dona, la ze vignesta a esser me mama, e me pupà, lora, a lo stesso tempo,
zera me pupà e me genero.
Dopo de un tempo,
la me tosa ( che zera anca me dona) la ga bìo un bambin, che ‘l zera me fradel
ma nipoto de me dona, de maniere che son deventà nono de me fradel.
Un tempo dopo,
ancora per sora, me dona ga bìo anca ela un bambin, che come fradel de me mama
(sposa de me pupà), el zera cugnà de me pupà e zio de so fiol (che zera mi), restando a me dona de esserghe anca la
nora de so propria fiola. E mi, caro, son deventà pupà de me mama, fradel de me
pupà e de me fioi, e la me dona deventada me nona, una volta che la zera mama
de la me mama (dona de me pupà).
Come le robe le
deventea sempre pèdo, go savesto che mi zera nono de me stesso.
Lora, prima che
devento ‘na femena, go deciso de tormela de sto mondo.Scuseme.
Luigi André Soccol e Amélia Maria Tomasetto Marca Soccol- meus pais, que me ensinaram e incentivaram a continuar no amor à cultura que eles amavam. Obrigada Gigio. Obrigada Amélia.
O homem na sociedade que se formava e a função da linguagem apontando sempre a mesma direção, afirmava no absoluto das expressões uma espécie de impotência e descrença de poder modificar um mundo real. Mas um mundo onde se falava uma língua desconhecida e o próprio desconhecido, não foram o bastante para desfazer os laços do fantástico universo interior de nosso povo. Isso resultou num fato único: palavras revestidas de carne e osso emergiram para reencontrar a própria natureza e assim, possuidores da sua própria verdade no corpo e na alma, possuidores de si mesmos, com uma alquimia de novas e velhas palavras, os Venetos/Brasileiros multiplicaram a semântica. E inventaram novas historias, novos casos, novos provérbios, novas canções, novas poesias… E criaram ( escrevo isso com um sutil prazer psicológico) o seu espaço pleno, essencial, maravilhoso.
ESTORIAS REGISTRADAS NAS FESTAS DAS CAPELAS DO INTERIOR DAS CIDADES DE:
SERAFINA CORREA, NOVA ARAÇÁ, NOVA BASSANO, GUAPORE, DOIS LAJEADOS, MuçUM, SÃO VALENTIN, DOIS LAJEADOS, VILA MARIA, SÃO DOMINGOS,CASCA, MARAU E MONTAURI. Agradeço famílias De Marco, Vedana, Cella, Grando, Silvestrin, Casagrande, Balbinot, Canton, Capra, Benvegnu, Santin, Fae, Peccini, Fávero, De Lazari, Calgaro, Moreschi, Taffarel, Luzzi, Marafon, Canei, Garbin, Tibolla, Zabott, Orso, Ampese, Triches, Rossetto, Nardi, Calza, Stefenon, Gregianin, Mior, Pagnussat, Dalla Corte, Bortolini, Seganfredo, Boff, Tecchio, Oldoni, Toigo, Turmina, Vanzo, Sabadin, Paloschi, Pacassa, Zucchetti, Secchi, Fior, Panarotto, Rossoni, Pandolfo, Soranzo, Morandi, Tretto, Menegatt, Bolsoni, Lorenzet, Pasqualotto e todas as que deixaram seus registros para o espaço ‘ Ciàcole’ do Jornal ‘ O Serafinense’.